Thursday, May 31, 2007

O PAGURO E O MOLUSCO

O MOLUSCO

O molusco é um "ser-quase-uma qualidade". Ele não necessita de vigamento, mas de um anteparo apenas, algo como a cor no tubo. Aqui a natureza renuncia à apresentação do plasma em toda sua forma. Mostra apenas que lhe está apegada, abrigando-o cuidadosamente num escrínio cuja face interior é a mais bela. Não é, pois, um simples escarro, mas uma realidade das mais preciosas. O molusco é dotado de uma energia possante para se fechar. A bem dizer, não é mais que um músculo, um gonzo, uma mola e sua porta. Duas portas ligeiramente côncavas constituem toda a sua morada.
Primeira e última morada. Reside ali até depois de sua morte. Nada se pode fazer para tirá-lo dali vivo. A menor célula do corpo do homem se apega assim, e com essa força, à palavra - e reciprocamente. Mas, às vezes, um outro ser vem violar essa tumba, quando está bem-feita, e nela se fixar no lugar do construtor defunto.
É o caso do paguro.


(Francis Ponge. O Partido das Coisas. Iluminuras, 2000. Trad: Adalberto Müller Jr. e Carlos Loria)






1 Comments:

At 5:00 PM, Anonymous Anonymous said...

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