Wednesday, August 05, 2009

LINHA IMAGINARIA

Trecho do projeto de documentario LINHA IMAGINARIA. Espero filmar em 2010.


Nasci na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Ponta Porã. Do outro lado se chamava  Pedro Juan Caballero. Filho de um teuto-brasileiro com uma paraguaia, cresci ouvindo 4 idiomas: português, espanhol, guarani e alemão. Da rua onde eu morava (Avenida Internacional), era possível ver o outro lado, o Paraguai, pois a fronteira é seca, ela pode ser cruzada a qualquer hora, a pé ou de carro, sem controles de passaporte. Mas só quem nasceu lá sabe onde se pode e onde não se deve cruzar a fronteira. Quando pequeno, me disseram que a separação entre os dois países era uma tal “linha imaginária”. Nunca consegui ver a linha, só os dois marcos de concreto (um em cada extremo das cidades). Aos poucos descrobri que havia vários tipos de fronteira. Inclusive internas (...)

Minha experiência de fronteira está registrada de maneira sintética num poema que publiquei no livro Enquanto velo teu sono (7Letras, 2003), e creio que ele define o tom do documentário de poesia:


Épura


Já não estou mais

onde nasci

nasci onde

     nunca estive

hoje vivo 


na fronteira dos ventos

  na linha imaginária

que sobrou entre os marcos

    Invisíveis de um mundo


que se move


Adalberto Müller, Enquanto velo teu sono, 2003.